A Pelada do Vovô

As Histórias da família de Rafael eram muitas. Aumentaram desde que o Vovô passou a morar com eles. Seu Ernesto, o genro, foi o que mais reclamou, mas de nada adiantou: Dona Eulália não queria deixar o pai morando num asilo. O Vovô só queria saber de curtir a vida e, para isso, contava com a ajuda de Rafael, que adorava as bagunças do velho. Naquele dia a confusão começou cedo.
 
 – Não, não e não! Mil vezes não! Prá sempre não! – Seu Ernesto esbravejava.
 
 – Mas o Feijão é legal. Ele até já veio aqui. – Talita se esforçava para convencer o pai.
 
 – Eu não posso impedir que seus amigos venham aqui, mas posso te impedir de sair com ele. Ou é o contrário?

Era sábado, dia de festa.

 – Tudo bem, você pode ir, mas com o Feijão, não!

 – Quer dizer que é racismo, né? – a menina ficou furiosa

 – Não se trata disso. – se arrependeu o pai.

           – Então é o que? Você não quer que eu saia só por que ele  é negro.

Dona Eulália tentou acalmar os ânimos

 – Talita, ninguém nessa casa é racista.

O Vovô que gostava de “ver o circo pegar fogo” botou “mais lenha na fogueira”.

 – Ele não é racista com a filha dos outros, mas com a dele…

 – Faça esse velho calar a boca! – Seu Ernesto bufou

 – Vou sair com o Feijão quer você queira quer não!

Dona Eulália tentou mais uma vez acalmar, mas…

 – Ernesto, pense bem, você vai criar um caso com sua filha por causa de um escurinho?

 – Tá vendo? É racismo!!!

A discussão poderia ter se alongado, mas Seu Ernesto enfim cedeu: 
 
 – Tudo bem, você venceu. Mas dez horas quero você aqui.

 – Dez horas? Mas às 10 horas a festa tá começando!

 Seu Ernesto não deu ouvidos a filha. Pegou a esposa e saiu para fazer as compras, afinal era sábado dia 1, o dia de fazer o supermercado do mês. Talita, chorando, foi à praia e Noêmia, a babá, teve que visitar uma amiga que estava “batendo as botas”. Quem ficou tomando conta do neném foi ninguém mais, ninguém menos do que o Vovô. Até que ele gostou, pegou um balde de pipoca, uma jarra de suco de maracujá, sentou no sofá e ficou assistindo futebol na TV. De vez em quando botava a chupeta na boquinha do neném. Só que toda essa calma foi abalada com a chegada de Rafael, que, esbaforido, adentrou a sala.

 – Vovô! A gente tá com um problema. O Bola teve “caganeira” e não pode jogar a final do campeonato. Você tem que salvar a gente.

 O Vovô se animou, mas logo lembrou que tinha que cuidar do neném. Rafael não desistiu e tentou convencer o avô de todas as maneiras. Já estava perdendo as esperanças quando lançou o último argumento.
 
 – Vô, coloca o carrinho atrás da  linha de fundo. É só cuidar do neném quando nosso time atacar. Aposto que ele vai ficar dormindo o tempo todo.

 – É , você tem razão. Vamos lá. Deixa só eu pegar a minha camisa de goleiro.

 O jogo foi emocionante: o time adversário era formado por garotos enormes. Mas aos poucos o time de Rafael foi ganhando confiança e passou a dominar a partida. Atrás, lá no gol, o Vovô agarrava tudo e sempre quando podia, dava mamadeira pro neném. Rafael fez um gol, quer dizer fez um golaço. No segundo tempo o time adversário passou a pressionar. Era pernada para todos os lados. Faltava menos de um minuto quando, sem opções, Rafael fez um pênalti para impedir o gol de empate. O jogo estava nas mãos do vovô. Se ele agarrasse o time de Rafael seria campeão. O cara se aproximou da bola. O juiz apitou. Ele chutou. E o Vovô agarrou!!! Logo depois o juiz acabou o jogo, e graças ao velho, a criançada pode comemorar. E comemoraram muito.
 Já era quase 11 horas da noite, e nada de Rafael, do Vovô e do neném aparecerem em casa. Dona Eulália, Seu Ernesto e Noêmia sofriam em pensar o que poderia ter acontecido. Até que porta se abriu. Era Talita.
 
 – Sabe o que foi, pai, a festa foi um horror. Aconteceu a maior confusão: O amigo da prima da Claudinha pulou o muro e o cachorro da vizinha deu um pega nele, aí o tio do amigo da namorada do Cacau teve um ataque e teve que ser levado pr’o hospital, aí a empregada que estava servindo…

A mãe interrompeu a “ladainha”.
  
 – Pode ir economizando desculpa por que esse comitê de recepção não é  prá você. Seu avô é que sumiu com o Rafael e com o neném.
 
 – Graças à Deus.

 Talita tinha escapado de ganhar um bronca que poderia lhe render um enorme castigo e nem se importou com o drama da família. Demorou mais um pouco o Vovô apareceu com Rafael e com o neném. Nas palavras do velho, eles “apenas” foram comemorar o titulo com a galera na casa do Bola, que tinha se recuperado da “caganeira”, e ofereceu um festival de hambúrguer e milk shake para todos. Não é preciso dizer que Seu Ernesto não se agüentou de tanta raiva e não quis saber nem de título nem de comemoração: colocou Rafael, o Vovô e o neném de castigo. Se é que alguém consegue colocar um neném de castigo. O pior é que depois daquele festival gastronômico o neto e avô ficaram em condição pior que o Bola antes da partida. O neném logo estava de chamego com Dona Eulália, mas Rafael e o Vovô passaram uma noite bastante conturbada, mas isso, bem isso é uma outra molecagem do Vovô.

Desenho baseado na ilustração de Alcy

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Comentários

Mais um muito bom. Já estou aguardando o próximo.
Bjo
João Carlos

Adorável Vovô!Isso da uns quadrinhos divertidos na tv hein?!Parabéns pelo blog!Ósculos p vovô

Coitada da Talíta…

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