O Pequeno Alquimista e o Pássaro de Pano

Já era manhã nas longínquas terras onde morava João, aquele que era considerado o mais jovem dentre todos os alquimistas. Desde cedo ele estava empenhado numa nova invenção. Matias, seu fiel companheiro, sempre ao seu lado, não parava de perguntar:
– Pra que isso? Para que serve?
– Sei lá – respondeu o menino – Hoje eu acordei com essa idéia. Acho que eu sonhei com algum pássaro.
Na realidade, o que João estava criando é muito comum hoje em dia, mas naquela época ninguém imaginaria uma coisa daquelas.
– Ficou pronto! – exclamou João – Agora vamos ver se dá certo. E começou a correr puxando uma corda que estava presa a um enorme pássaro feito de pano e ripas de bambú. Não demorou, e o pássaro, com a força contrária do vento, foi subindo, subindo, até ganhar a altura máxima correspondente ao tamanho do fio que era puxado por João. Matias não podia acreditar. Ele estava mais animado que o próprio inventor.
– Deixa eu puxar o pássaro agora, João! – mas João não estava muito a fim de deixar – Pô, João, só um pouquinho.
– Não vai dar, não, meu camarada. Para guiar esse pássaro de pano é preciso ser forte e estar bem preparado.
– Ah, qual é, João? Não vem com esse papo pra cima de mim, não. Se você consegue, porque eu não vou conseguir?
– Tudo bem. Mas vê se não vai fazer besteira, tá?
João parou de puxar o pássaro e deu a corda para o seu amigo. Matias, animadão, começou a correr, puxando o enorme pássaro de pano. Corrreu, correu, correu, tropeçou e se estabacou. Com o tombo soltou a corda e deixou o pássaro voando ao sabor dos ventos.
– Não te falei que não era pra qualquer um? – esbravejou João – E agora, como é que a gente vai pegar o pássaro?
– Pô, eu, todo ferrado aqui, e você só pensa nesse maldito pássaro? – Matias, ainda no chão, reclamou do amigo.
– Em primeiro lugar vem a ciência, meu camarada. Vamos atrás dele.
E puseram-se a seguir o pássaro, que ora ganhava altura, ora se aproximava do chão. Não demorou muito o pássaro parou de voar, mas para azar dos dois amigos ficou preso no alto de uma árvore.
– Agora danou-se! – olhando para cima, Matias perdeu as esperanças.
– Eu vou subir e pegar. – João estava decidido.
– Que isso, cara? Tá maluco? É muito alto! Depois você faz outro.
– Nunquinhas! Depois do trabalho que eu tive? – enquanto falava, João ia escalando a árvore – De mais a mais, vai ser ruim repetir esse formato sem poder copiar o modelo.
A árvore era realmente muito grande, mas João, sem medo, ou pelo menos aparentando isso, subia de galho em galho. Depois de muitas dificuldades, conseguiu chegar até onde estava o pássaro, que milagrosamente estava intacto. O problema agora era conseguir sair dali: se descesse de galho em galho, na certa iria rasgar o pano; se jogasse para baixo poderia ficar preso novamente, ou sair voando, ou até mesmo quebrar as ripas de bambú.
– E aí, como é que você vai descer daí com o pássaro? – gritou Matias lá de baixo.
João nem respondeu. Esperou uma lufada mais forte e se jogou lá de cima segurando o pássaro como se fosse uma capa. Matias não acreditou no que via: seu amigo estava voando. Devagar, João foi planando até chegar ao chão.
– Caraca! você é maluco, João! Como é que você fez isso?
– Pra falar a verdade, foi um pouco de raciocínio aliado a muita sorte. Eu não sabia se o pásssaro conseguiria aguentar meu peso, mas ainda bem que eu sou magrinho.
– Como é nome dessa invenção?
– Não sei… eu estava pensando… isso me fez parecer que estava com asas, deitado no ar. Acho que vou chamar de asa-deita.
– João! Você fez suas pesquisas? Venha já para casa!
Depois de ouvir o grito do pai, nada mais restava ao pequeno alquimista a não ser estudar, afinal, para os alquimistas, nada era mais importante do que a transformação da lata em ouro, e o pássaro de pano, bem o pássaro de pano era só uma brincadeira de criança.

ILUSTRAÇÃO MARIANA MASSARANI

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Comentários

Gostei!

Muito bom, Márcio. Voltando às origens… Serei fequentador assíduo deste Blog. Bjo
João Carlos

O Pequeno Alquimista, um dos meus preferidos do Márcio e das crianças da escola também.
Estarei sempre por aqui.
Bjs Alê

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