No Final do Arco-Íris

Eu sempre ouvira falar que no final do arco-íris existia um pote de ouro, mas não foi bem isso que eu vi, quando estive lá. É. eu já estive no final do arco-íris.
Tuca, Teca, Zeca e eu vivíamos intrigados para saber o que, de fato, haveria no final do arco-íris.

- Gente, existe um enorme pote de ouro, e se encontrarmos, vamos ficar milionários.

Teca, que não pensava em nada à toa, respondeu:

- Se existe mesmo um pote de ouro, você não acha que alguém já deveria ter pensado em ir lá? Piratas, aventureiros, mercenários, todos aqueles que só pensam em riqueza, nunca foram pegar o tal pote.

- É que nenhum deles teve a coragem de ir.

- E você, o Super Zeca, tem coragem e vai conseguir pegar o pote.

- É isso mesmo!

- Deixa de ser bobo, garoto.

Quando a Teca e o Zeca começavam a discutir, eu e a Tuca nunca nos metíamos. Sabe como é briga de irmãos, né? Mas depois que a discussão acabou, a Tuca se pronunciou:

- Eu acho que a Teca tem razão, mas por outro lado, eu li num livrvo que não é qualquer um que pode chegar lá. É preciso, além de coragem, acreditar que ele existe.

- Que o arco-íris existe?

- Não, burro. O final do arco-íris. É que, na verdade, ninguém nunca acreditou nisso.

- Eu acredito! Eu acredito!

A força das palavras de Zeca foi tanta, que todos passamos a acreditar que Zeca acreditava na lenda do final do arco-íris.

- Eu acredito! Eu acredito!

Como cada um de nós, no fundo, acreditava um pouquinho nessa lenda, resolvemos que no dia em que o arco-íris aparecesse, nós tentaríamos chegar até o seu final.

- Então todo mundo tem que ficar atento: no dia em que ele aparecer, nos encontramos na casa da Tuca.

Não demorou muito para chegar o dia em que o arco-íris apareceu. Só que era de tarde, e a Teca demorou muito para chegar, pois ela estava na escola.

- Desculpa, galera. Eu não consegui chegar mais cedo.

- Só podia ser a minha irmã para atrapalhar tudo.

- Quer parar de implicar, garoto.

Rapidamente eu coloquei a minha autoridade de mais velho e parei aquela discussão. Quando começamos a caminhar o sol estava quase se pondo.

- Tá vendo! Tá vendo! Não vai dar tempo de chegar lá.

- Mas também essa chuva só acabou agora!

- E pelo visto não vai chover tão cedo.

Para os que não sabem, o arco-íris só aparece depois da chuva, quando o sol bate nas gotas que ainda estão no ar.

- Mas o que adianta ser de tarde ou de manhã. O arco-íris só dura uns poucos minutos.

- Você sempre tem um raciocínio perfeito, minha irmãzinha.

- Calma, Zeca, a Teca, como sempre, tem razão, só que no mesmo livro, que eu obtive aquelas informações, diz que haverá um dia em que o arco-íris vai brilhar o dia inteiro. Quem sabe será no próximo dia em que ele aparecer.

Todos ficamos muito desanimados. O tal dia nunca havia acontecido, não seria agora que ele iria acontecer.

- O melhor que temos a fazer é irmos para casa e esperarmos o tal dia. Vamos, Zeca, mamãe deve estar esperando a gente para jantar.

Não é preciso dizer que o tal dia demorou, demorou e não chegou. Então, para levantar o ânimo, convidei os três para passarem o fim de semana no sítio da minha avó. Teca e Zeca aceitaram no ato, mas Tuca ficou indecisa:

- Não sei, não. É lógico que a viagem vai ser o máximo, mas já imaginou o que nós vamos ter que aguentar com as implicâncias entre o Zeca e a Teca?

Isso era verdade. Passar o fim de semana inteiro na companhia dos dois não ia ser mole. Mas o argumento de que as diversões iam abafar as discussões, fez com que ela topasse. E no primeiro dia ficou provado que eu tinha razão: não houve nehuma discussão e as brincadeiras foram muitas. Banho de rio, aventuras na floresta, passeio de cavalo, excursão à granja. Tudo o que tínhamos direito em um sítio. À noite, cansados, da sala de leitura ouvíamos a chuva que caía. Logo, com o cheiro gostoso de terra molhada, e com o barulho da chuva, dormimos, os quatro, no tapete da sala. Quando acordei, o sol já invadia a sala e um facho de luz iluminava os adormecidos. Fui à janela, e quando olhei para fora ví, mais brilhante do que nunca, o arco-íris. Meu coração começou a disparar e, quase sem voz, acordei os outros, que relutaram a levantar.

- Ah, que é isso? Ainda nem fechei os olhos já tenho que levantar?

- Nem adianta me chamar. Eu preciso de nove horas diárias de sono, senão eu não sou ninguém.

Só a Tuca se lenvantou e quando eu a levei para a janela, ela deu um grito que acordou os irmãos.

- O que foi isso?

- Aconteceu alguma coisa?

- Olhem! Olhem pela janela!

- Minha nossa: o arco-íris!

- Nunca ví tão nítido e brilhante!

- Vamos, gente, vamos tentar!

Rapidamente seguimos sua trilha e, a cada passo que dávamos, mais nítido ele ficava, mas o seu final parecia estar muito longe.

- Eu acho que esse arco-íris não tem final.

- Não fala isso, Teca. A gente tem que acreditar.

- Agora, mais do que nunca, eu acredito.

Havia horas que estávamos andando e o arco-íris não tinha desaparecido. Pelo contrário, estava enorme, quase ocupando o céu inteiro.

- Talvez seja hoje o tal dia em que o arco-íris vai brilhar até a noite. mas só que eu estou começando a ficar com fome.

- Você tem razão, Tuca. Meu estômago já tá roncando há muito tempo.

- E agora gente? Não trouxemos nada para comer.

Desde pequenininho eu vivia naquele sítio, mas nunca havia andado por aquelas terras. Como num passe de magica várias árvores frutíferas foram aparecendo pelo caminho. Eram maçãs, abacaxis, laranjas, pêras, morangos, jabuticabas, mamãos, mangas… Pudemos matar a nossa fome. Parecia que estávamos no paraiso, mas Teca, sempre realista, nos chamou à terra.

- Gente, se hoje é o dia em que o arco-íris vai brilhar até a noite, temos que nos apressar, pois pela posição do sol agora já estamos no meio da tarde.

Continuamos a caminhada. E, finalmente, atrás de um pequeno monte, conseguimos avistar o final do arco-íris. Ele terminava num poço. A alegria foi geral. Corremos muito até chegar ao poço. Na verdade, não era um poço, era um pequeno lago. Do tamanho de uma piscina. A primeira reação que tivemos foi mergulhar, mas Teca nos impediu:

- Calma, gente. Temos que ir devagar, afinal ninguém nunca chegou até esse poço. Ele deve reservar algo muito importante.

- No fundo do poço deve estar o pote de ouro.

- Você teria coragem de mergulhar e ir busca-lo?

- Bem… é… se vocês forem comigo.

- Teca tem toda razão: temos que pensar um pouco antes de entrar nessa água.

Depois de algum tempo, eu tive a idéia de entrar aos poucos para ver nossa reação.

- Vamos começar pelos pés, depois as pernas…

- Isso, depois entramos de vez.

E foi assim. Todos nós colocamos os pés, as pernas, entramos até a cintura, e nada de anormal acontecia. Zeca, na sua impaciência, não aguentou : pulou. Afundou dentro do rio, e com o corpo todo molhado falou:

- Nada. Nada de anormal aconteceu. Vou mergulhar e ir até o fundo para ver se acho o pote.

Esperamos o Zeca voltar, mas o tempo passou e ele não apareceu. Quando nossa ansiedade chegou ao limite, afundamos. Nada de Zeca. Nada de final do poço. Mas ao mesmo tempo parecia que não estávamos no fundo do poço, por que conseguíamos respirar e falar, como se estivéssemos em terra.

- Estou preocupadíssima. Aonde está o meu irmão?

- Calma, Teca, ele deve estar bem. Nós não estamos?

Por um instante tive uma sensação estranhíssima: era como se a minha vida inteira passasse pela minha cabeça. Até os momentos que eu ainda não tinha vivido. Zeca apareceu em seguida, e todos subimos para a superfície. O espanto foi grande: todos nós havíamos envelhecido uns 30 anos. Zeca estava de barda. Teca, muito bonita, usava óculos e uma roupa branca, e uma estranha relação me unia à Tuca. Fisicamente havíamos envelhecido, mas a nossa mentalidade continuava a mesma, exceto por alguns comentários estranhos.

- E agora, o que vamos fazer? Tenho que estar no escritório segunda-feira para fechar alguns contratos.

- Escritório? Que papo é esse, Zeca?

- Sei lá! Não sei por que eu falei isso. Que estranho!

- Estranho é ficar aqui brincando como criança sabendo que meus pacientes estão precisando de mim.

- Que isso, Teca? Pacientes? Só se forem as suas bonecas.

- Você tem razão, porque é que eu falei isso?

- Será que ficamos malucos?

Falando isso, Tuca olhou para mim indignada por que tínhamos deixado as crianças sozinhas. Que crianças? Tudo estava muito estranho. Alguma coisa mágica aconteceu quando mergulhamos no poço. Ficamos apavorados:

- E agora?

- O melhor que temos a fazer é mergulhar novamente no poço.

- E se envelhecermos mais?

- Zeca, acho que não temos outra alternativa.

Mergulhamos e nadamos até o ponto onde tínhamos ido. Voltamos para a superfície, mas continuávamos adultos. Tuca começou a chorar. Zeca ficou mudo de nervoso. Teca, pela primeira vez, não sabia o que fazer.

- Gente, eu acho que a nossa brincadeira foi longe demais. Vamos voltar para casa.

Desesperados, saímos correndo pelo mesmo caminho que tínhamos vindo. Só que a paisagem era outra. O campo mais parecia um deserto. Aquelas árvores frutíferas tinham desaparecido e não conseguíamos chegar na casa da minha avó. A noite caía e o mêdo aumentou. De vez em quando alguém falava alguma coisa estranha, que ninguém entendia:

- E as crianças? Como será que elas estão? Será que a babá está cuidando bem delas?

- Que crianças, Tuca?

- Sei lá.

Exaustos, resolvemos descansar debaixo da única árvore que havia restado. Já era noite feita. Cada um de nós, vencidos pelo cansaço, foi adormecendo. Parecia que eu nem tinha deitado, quando o galo cantou. Abri os olhos. Estava na biblioteca da casa da minha avó. Olhei para o Zeca e ele estava tão criança quanto eu. Sem demora, fiz questão de acordar os outros.

- Ah, que é isso? Nem fechei os olhos já tenho que acordar?

- Nem adianta me chamar. Eu preciso de nove horas diárias de sono, senão eu não sou ninguém.

A Tuca se levantou e me olhou espantada. Logo depois Zeca e Teca se levantaram. Parecia que eles também não estavam entendendo nada. Ninguém disse uma palavra. Ficou a certeza: nossa vontade de ver o final do arco-íris era tanta que acabamos sonhando, juntos, o mesmo sonho. Bem, isso é o que pensamos durante muito tempo, por que hoje Teca é médica, Zeca, além de usar barba, é diretor de uma fábrica de panelas, e eu e Tuca estamos casados e temos três filhos. Será que aquilo foi um sonho ou no final do arco-íris existe um poço misterioso?

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Comentários

Amei esta Márcio rsrsr
Eu acreditoooooooooo!!!!!!
beijo grande Alê

BRAVO! BRAVO!!!
Oh, someday we’ll find it
The Rainbow Connection
The lovers, the dreamers, and me!!!

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