Um Dia, Uma Velhinha

de    Luciana Sandroni

 O que?! Como? Eu não estou escutando? Fala mais alto, minha filha! Eu não faço idéia do que aconteceu… Não sei como eu vim parar aqui no chão. Você me ajuda a me levantar, por obséquio? Ah, muito obrigada. Não sei o que seria de mim sem a sua ajuda, minha filha. Ai, minha virgem santíssima, que balbúrdia! Atropelada por um… O que era aquilo, hein? Eu estou tão abalada que nem sei. Para falar a verdade eu não entendi patavina do que aconteceu. Eu só queria comer um cachorro-quente e aí… O que?! O menino já conseguiu pegar o cachorro? Mas aquilo não era um urso? Pensei que fosse um urso fugido do circo. Ah, mas eu vou dar uma bengalada nesse moleque! Até que enfim essa bengala vai ter serventia! Seu meninote destrambelhado! O que?! “Minha tia?!” E eu lá sou sua tia?! Como?! “Velhota pirada?” Você viu, minha filha, do que ele me chamou?! Mas onde é que nós estamos, meu Deus?! Faz um estrago desses e ainda vem me xingar! Olha só! Até a carrocinha de cachorro-quente virou! Que pandemônio! E esses cachorros todos? De onde eles saíram? O que? Sentar? Ah, seria bom. Obrigada. Por que as pessoas estão me olhando? Como? Ah, elas estão preocupadas comigo. Eu ficaria mais preocupada com esse cachorro à solta por aí. Mas você tem certeza que era um cachorro? Parecia mais um urso. Sei… era um São Bernardo e eu sou baixa. Mas eu já fui um pouco mais alta. Eu diminuí, quer dizer, encolhi. Com a idade a gente vai encolhendo. Já fui alta e já fui nadadora. Você não acredita? Pois pode acreditar, minha filha. Eu nadava dessa praia aqui até o lado de lá. E nadava muito bem. Não que eu fosse uma Maria Lenk, mas nadava muito bem. O que? Quem é ela? Minha filha, a Maria Lenk foi a primeira mulher brasileira a participar de uma Olimpíada. Não, eu não fui para à Olimpíada não. Eu me casei e tive filhos. Meu marido não me deixava nadar. Pois é, no meu tempo era assim. Eu me contentava em assistir as fitas da Esther Willians e do Johnny Weissmuller. O quê? Ah, eram estrelas de cinema do meu tempo, minha filha. Você nunca viu um filme do Tarzan? Que coisa impressionante… Se eu vim nadar? Vim. Como você adivinhou? Ah, claro, eu estou aqui de maiô e toquinha, não é? Hoje é o meu filho que não me deixa nadar. Ele diz que eu estou velha. Velha é a cabeça dele! Eu tenho 90, minha filha, mas eu não me sinto velha. A Maria Lenk está aí nadando a valer com mais de 90. Porque eu também não posso? Velha é um estado de espírito, não tem nada a ver com a idade. Por exemplo, meu filho, é muito mais velho do que eu. Por quê? Ah, porque ele só fala de remédio, de aposentadoria, de fila de banco, essas coisas. O quê? Como é que eu saí sozinha? Ah, saí escondida. Você também? Que coincidência! Concordo com você: estudar num dia lindo desses não tem cabimento. Pois então, eu vi esse sol brilhando, esse dia estonteante e não tive dúvidas: “Vou nadar!” Não fazia um sol desses há muito tempo, não é mesmo? Só que eu não imaginei que ia enfrentar um urso no caminho da praia! Ainda estou com as pernas tremendo… O que? Se eu quero um cachorro-quente? Obrigada, acho que perdi o apetite. Como é? Tem um careca acenando para mim?! Ah, não! É o meu filho. Eu tenho que ir. Eu tenho que correr, se não ele não me deixa nadar. Até logo, minha filha, eu tenho que ir. Obrigada, por tudo! A bengala? Ah, você pode entregar para o meu filho, por obséquio?

GLOSSÁRIO (PARA ENTENDER ALGUMAS PALAVRAS ANTIGAS)

Obséquio – favor

Balbúrdia – confusão

Patavina – nada

Destrambelhado – adoidado

Pandemônio – confusão

A valer - muito

Estonteante - deslumbrante

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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