Cândido e Poliana

de Celso Taddei

Se o Bola de Neve me visse agora, ia blanquetear como nunca ninguém jamais blanqueteou, podem ter certeza. O Bola de Neve é um sujeito tão incrédulo que duvida até que o sol vai nascer no dia seguinte. Tenho dó do Bola de Neve, porque, duvide-ó-dó ou não duvide-de-ó-dó, ó o sol nascendo de novo – como sempre nasceu e como sempre nascerá. Hoje, por exemplo, está brilhante como ketechupe dentro do vidro. De vez em quando dá pra ver daqui. Tá, esse teto retrátil, abrindo e fechando o tempo todo, atrapalha um pouco – mas deve ser coisa de piscina aquecida, vai entender esses trecos afiambrados…

O que importa é que eu estou refestelado nessa aguinha quentinha, cercado de amigos e principalmente do lado dela! Dela, sim. Ela mesmo. ELA! Pois é. Sei que soa mainoese-mainoese, mas podem acreditar. Poliana está aqui, com o mesmo jeitinho meigo de sempre – um pouco mudada, sim, mas quem não muda? E ela, amigos, mudou pra melhor!

Quando eu falava que a gente tem que ser otimista, olhar o lado bom das coisas, acreditar que tudo vai dar certo, a turma achava exagero. “ Cândido, você é muito otimista”, diziam.

Bola de Neve, então, ficava uma arara, por incrível que pareça. Ele nunca se conformou com meu jeito: me achava um iludido e alertava de uma grande conspiração que acabaria com todos nós; a única saída era partir pra briga!

Briga? Eu, heim?! Tinha outras preocupações. Ou melhor, outra preocupação, que a preocupação era uma só. E se chamava.. Poliana!

Eu me apaixonei por Poliana muito cedo. Fomos criados juntos naquela vida boa de fazenda, livres, leves e soltos, compondo roques rurais – Cândido, Poliana e quem mais chegar – nossa vida parecia até comercial de margarina. (Aliás, gente, margarina em cachorro-quente não dá, né? Por favor, um mínimo de decência.)

Mas sou forçado a dizer, apesar de toda minha alegria e de todo meu otimismo, a margarina acabou azedando e Bola de Neve, infelizmente, mostrou que estava certo, que nossa vida na fazenda estava mesmo por um fio. Quando eu e Poliana acertávamos nossas vidas e começávamos a sonhar com um monte de bacurinhos correndo à nossa volta… aconteceu aquilo que meu amigo sempre avisou que iria acontecer. E a porcaria foi que a tal da conspiração caiu bem em cima de minha cabeça.

Ser porco não é fácil, principalmente quando se é um porco numa fazenda de corte. Não gosto de ficar me lamuriando, não gosto mesmo. Mas que foi chato quando me separaram de Poliana, ah, isso foi. E sem nenhuma delicadeza me jogaram num caminhão todo amarrado, pra mais tarde me dar uma paulada na cabeça (acho que foi paulada na cabeça, minha memória nunca mais foi a mesma depois disso). Muito chato.

Mas nada como um dia depois do outro e não há nada que uma boa noite de sono não cure. No meu caso, que era bem complicado, foram várias noites, Quando acordei de um longo sono de sonhos estranhos e incômodos, me senti diferente do que era. Uma sensação absurda, como se tivessem pego meus duzentos quilos suínos e enfiado numa salsicha de poucos gramas. E foi exatamente isso que aconteceu. Me transformaram em salsicha.

No começo, foi meio chato – não pelo inesperado da situação, isso não. Fora a saudade que sentia de Poliana, a nova vida de embutido até me era bastante agradável. Ruim era ter que agüentar as lamúrias dos companheiros da geladeira do supermercado, se esbelentando de tanto reclamar. Desculpa dizer, mas quando me tiraram da prateleira, foi um alívio – não achei ruim nem perder o ar condicionado, que era uma maravilha.

Mas a vida, como sempre digo, reserva sempre alegrias novas e diversas. Depois de tantos percalços, acabei esbelentado por esse passeio agradável, nesse lindo parque (acho que é um parque, o teto retrátil prejudica a visão), dentro dessa deliciosa piscina térmica e ao lado de minha linda, rósea e rotunda… Poliana. Mas, a história não terminou. Não. O que aconteceu foi que… Bem, não posso dizer ao certo. Perdoem, mas é que meus olhos só viam Poliana, e como salsicha não tem mesmo olhos, vocês imaginam que notar algo além do meu tenro amor, seria complicado. O fato é que, no meio daquela festa incrível, com a salsichada numa grande euforia, borbulhando de alegria; eu e Poliana, depois de tanto tempo separados, finalmente conseguimos chegar perto um do outro. Foi tanta emoção que parecia que eu ia estourar e que o mundo ia virar de cabeça pra baixo. Engraçado é viroui mesmo. O carrinho de passeio caiu de lado, a piscina térmica entornou e levou todas nós, salsichas, para o chão. Na queda, deu pra perceber gente correndo pra todo lado, gritando, devia ser carnaval, só podia. Pelo menos foi tão divertido quanto. Até encontrei um cãozinho muito simpático – acho que ele morava na fazenda, não é que o danado me reconheceu e veio bem pertinho de mim pra dar uma lambidinha de alô? Mas depois a confusão passou, a turma acalmou o ânimo e nós ficamos ali, fritando feito boas e belas salsichas no sol. Ô, vidâo! Bola de Neve ia blanquetear de vez ao me ver pegando um bronze, deitadão na terra fofa, nessa grama fresquinha e, do meu lado… Poliana!

Glossário:

BLANQUETEAR – Tomar um susto muito grande, a ponto de perder as cores da face e soltar um gritinho meio fino.

AFIAMBRADO – Pessoa, animal ou objeto chique, sofisticado.

MAINOESO-MAINOESO – O equivalente ao nosso mahomeno.

ESBELENTADO – Diz-se da salsicha que se esbelentou, e pode ter um sentido tanto positivo quanto negativo. Embora não haja uma tradução precisa na nossa língua, tem aproximadamente o mesmo significado da famosa expressão dos hambúrgueres, quando se dizem “borbulhados de fritor”.

Iliustração Amorim

 

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Comentários

eu achei essa historia incrivel…!!!

Texto afiambrado, estória mainoeso triste e mainoeso feliz! Uma beleza de texto.

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