Botelho, Botina e a Criatura

Acho que muita gente sabe que os sapatinhos de cristal antes de

serem famosos mundialmente por ajudarem no casamento de uma certa princesa, foram duas botas velhas, surradas e bastante usadas. Elas pertenceram a um menino que se chamava Heitor.
Quando chegaram, ainda jovens, à casa desse menino, as botas foram recebidas com enorme festa. Na verdade a festa era para o garoto, que fazia, na época, 9 anos. O grande embrulho que as transportava foi logo desfeito e para alegria de Heitor lá estava aquele par de botas reluzente. A primeira coisa que ele fez foi calça-las, correr e sair gritar:

– Essas botas são rápidas pra caramba!

E assim foi durante muito tempo. Mal acabava de acordar, Heitor as vestia para mais um dia de bagunça. Isso quando ele não dormia com elas. Até nome deu para cada uma das botas: Botelho e Botina.
Acho, como disse acima, que muita gente conhece A Verdadeira História dos Sapatinhos de Cristal, mas hoje eu queria contar um caso que aconteceu quando as botas ainda estavam no vigor de suas juventudes e Heitor, seu dono, ainda as adorava e não as tirava de seus pés.
Acontece que um dia, Heitor, como era seu costume, sumiu de casa.
Iludido pela fantasia de que era um grande explorador, se embrenhou no mato e não soube como voltar para casa. A mata densa fazia com que o dia parecesse noite e o menino, atrasando o medo, resolveu subir numa árvore para ver se, do alto, avistava sua casa. Tirou as botas para ter mais firmeza com os pés e pôs-se a escalar a árvore que ele julgava ser a mais alta. Subiu tanto que Botelho e Botina perderam-no de vista.

– Aonde é que esse cara foi se meter? – Botina mesmo jovem já era temerosa como uma idosa.

– Não sei, mas acho que ele deve estar buscando ajuda. Fique calma, Heitor sabe o que está fazendo – Botelho tentava acalmar, aquela que viria a ser sua eterna amada.

Eles não souberam os motivos, mas o fato é que Heitor sumiu. Passou-se muito tempo e nada do garoto aparecer. O dia, que por causa da mata ficava como a noite, estava virando noite mesmo. E a mata densa, com o escurecer, parecia se fechar cada vez mais. Botina ficou desesperada.

– Estamos perdidos! Daqui a pouco não vai dar para ver mais nada.

Botelho tentava acalmar a namorada:

– Nada de mal pode acontecer com a gente, Tina. Quem é vai querer mexer com um par de botas?

Botelho ainda não tinha terminado de falar, quando a sua frente uma criatura que eles nunca tinham visto passou a fita-los fixamente. Seus olhos esbugalhados eram como duas bolas de gude grudadas numa cara sem nariz e que tinha uma boca, que mais parecia uma sola desgrudada do sapato.

– Bo…te…. – Botina nem conseguia falar, paralisada pelo terror.

Botelho, quase num sussurro, conseguiu ordenar:

– Mantenha a calma. Não demonstre me…

A bota do sexo masculino foi interrompida bruscamente quando aquela estranha criatura pulou para dentro dela. Botina ficou aterrorizada, mas como botas não andam se não houver um pé para move-las, não teve o que fazer. Botelho, mesmo com um sapo dentro de si, tentou acalmar Botina.

– Calma, embora um pouco fria, essa criatura parece ser amistosa.

Passado o desconforto inicial e vendo que a “criatura” não oferecia maiores perigos, Botelho afirmou:

– Pelo menos agora temos companhia.

Não se sabe quando tempo se passou (para a dupla de botas pareceu uma eternidade) quando um barulho, seguido de movimentos e algumas luzes chegaram até eles. Era Heitor, acompanhado de seu pai, que segurando velas, achou Botelho e Botina.

– Pronto! Não precisa mais fazer escândalo! Elas estão aqui. Não dava para virmos amanhã?

Heitor, de cima da árvore, havia achado sua casa, mas na hora de descer acabou por se perder das suas amadas botas. E não sossegou enquanto seu pai não saiu para procura-las.
No dia seguinte, Heitor acordou mais tarde, afinal aquela noite tinha sido agitada. Ainda quase com os olhos fechados colocou seu pé direito em Botina, mas na hora de enfiar o pé esquerdo em Botelho…

– Aaaaaaaaaaaaaah!

Quando o pé encontrou o corpo frio da “criatura”, Heitor se assustou e passou a gritar e correr pela casa como um louco. Foi preciso o pai, com sua autoridade paternal, acalmasse o filho e examinasse a bota.

– Esse sapo deve ter entrado na bota, quando ela estava na mata.

E foi isso. Talvez o sapo tenha gostado do aconchego que havia no interior de Botelho ou quem sabe, ele era um príncipe que reconheceu na bota seu passado humano. O fato é que esse acontecimento só faz me lembrar da velha música que meu avô sempre cantava quando eu era pequeno. Dizia mais ou menos assim:

Olha o sapo no sapato
Sapato com sapo dentro
O sapo batendo papo
E o papo fazendo vento.

ILUSTRAÇÃO MARIANA MASSARANI

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