MINHA VIDA DE HIGHLANDER II – A CACHOEIRA

             No começo dos anos 80 depois de muitos anos de praia, resolvi me aventurar no mato. Conheci Conceição de Ibitipoca, em Minas, Macaé de Cima, no Rio, mas foi em Lorena, São Paulo, que se passou a história que ora vou contar.

Alguns amigos e amigas resolveram passar o fim de semana no sítio da família do Aquino. Éramos, se não me engano, cinco pessoas: Eu, Paulinho, Aquino e duas meninas que, sinceramente, não  lembro os nomes. Fazia uma fria manhã, no sábado. Mas o frio não foi suficiente para nos impedir de desbravar a região.

- Aqui tem cachoeira? – perguntou uma das meninas.

- Tem, mas a gente chega nela por cima, desce pelas pedras, até chegar na parte banhável. – respondeu o Aquino, profundo conhecedor do local.

E assim foi feito. Chegamos pelo alto. Ainda não havia nem o leito de rio, apenas um lodo e um filetinho de água que escorria para baixo. Paulinho, Aquino e uma das meninas se adiantaram para chegar logo na parte baixa e eu fiquei atrás com a outra menina. Devia estar contando alguma vantagem, quando quis, para me mostrar, é claro, pular o lodo para chegar perto do filetinho de água. Só que não cheguei do outro lado. Escorreguei, tomei o maior estabaco e fui descendo pelo lodo.

- Volta aqui! – gritou a menina.

- Não dá.

Não dava para me levantar. Devagarzinho fui descendo, passei pelos três que estavam à frente, que me olharam sem entender o que estava acontecendo,  e, aos poucos, todos os filetinhos e lodos foram convergindo na minha direção. A velocidade da água aumentou, o desespero baixou e não havia nada que eu pudesse fazer. De repente apareceu, na minha frente, uma pedra enorme. Pensei:

 “Phodeu! Vou me arrebentar todo.”

 Deixei o corpo mole e me entreguei a Deus. O forte fluxo da água me fez rodear a pedra e me jogou numa piscininha, que mais parecia um pinico. Cai sentado. O coração batia forte, as pernas tremiam, mas pelo menos eu estava salvo e aparentemente ileso. Não demorou muito Aquino chegou e me falou, com a calma dos que não querem te desesperar:

- Me dá sua mão e levanta com muito cuidado.

- Tá tranqüilo. Dá pra sair sozinho.

- Me dá sua mão e levanta com muito cuidado.

Eu não estava entendendo porque ele repetia, quase como um robô, aquela frase. O pior já tinha passado, agora era só sair do piniquinho e pronto.  Para não ser mal educado,  aceitei a ajuda e sai. Na hora que eu estava firme na pedra, foram os quatro que caíram com as pernas trêmulas.

O fato era que logo abaixo do “piniquinho” tinha uma queda d´água de mais de 30 metros. O pior não havia passado na hora que eu pensei.

Depois, refletindo com calma, cheguei a conclusão que fui salvo por um pinico. Escorreguei numa cachoeira que eu não conhecia, ralei as costas, morri de medo,  só para me mostrar. A queda era fatal. E se não tivesse a pedra no meio do caminho? E se não tivesse o piniquinho?

Essa história pode ser comprovada por Paulo Sérgio Velloso, o Paulinho.

O Relógio da Aventura

Ontem foi exibido o último episódio do que pretendo chamar primeira temporada do Relõgio da Aventura. Se você não viu e quiser saber, um pouco, como foi acesse:

http://especial.orelogiodaaventura.globo.com/

LANÇAMENTO DO LIVRO AMIGOS DO PEITO

Com a palavra, meu amigo Zé Zuca:
Queridos amigos

Gostaria de ter vocês no lançamento do meu livro “Amigos do Peito” (serão três lançamentos, mas se você for em um, já ficarei satisfeito). O livro é sobre a amizade e as diferenças. Acho que vai ser muito divertido. Vou fazer um pocket show, onde contarei meu encontro com alguns grandes amigos. Outros amigos artistas vão participar, cantando também. Neste sábado, dia 15, na Saraiva do Botafogo Praia Shopping, participarão comigo o meu parceiro inseparável Mariano Rodney, o Nicolau e o Hamilton Catette. Vai ser o bicho. Alías, a história do livro tem uma porção de bichos desenhados lindamente pela ilustradora e amiga Bia Salgueiro. 

O livro vem acompanhado de uma música em um Cd anexo para ser cantada enquanto se lê o livro. O texto é a própria letra da música. Alcança as crianças bem pequenas e dá pra todo mundo cantar junto. A editora que nos abriga é a novíssima e saudável Mirabolante, de uma dupla sensível e cheia de gás: André Agra (o Deco) e Márcio Trigo, artistas, músicos…amigos, como vocês.

Pega a garotada, leva pra big livraria e vamos dar um banho nelas de cultura. A entrada, claro, é franca. Você só vai adquirir o livro, com a merecida dedicatória.

Beijos. Zé Zuca

BEL E BIA

As duas amigas inseparáveis

Bel e Bia, meu oitavo livro. O primeiro pela minha editora, a Mirabolante, cujo foco principal é a literatura infanto-juvenil.

Lançamentos: Dia 30/11, às 16 h, na livraria da Travessa, do Barrashopping.

Dia 13/12, às 17 h, na livraria Da Conde, no Leblon

No Final do Arco-Íris

Eu sempre ouvira falar que no final do arco-íris existia um pote de ouro, mas não foi bem isso que eu vi, quando estive lá. É. eu já estive no final do arco-íris.
Tuca, Teca, Zeca e eu vivíamos intrigados para saber o que, de fato, haveria no final do arco-íris.

– Gente, existe um enorme pote de ouro, e se encontrarmos, vamos ficar milionários.

Teca, que não pensava em nada à toa, respondeu:

– Se existe mesmo um pote de ouro, você não acha que alguém já deveria ter pensado em ir lá? Piratas, aventureiros, mercenários, todos aqueles que só pensam em riqueza, nunca foram pegar o tal pote.

– É que nenhum deles teve a coragem de ir.

– E você, o Super Zeca, tem coragem e vai conseguir pegar o pote.

– É isso mesmo!

– Deixa de ser bobo, garoto.

Quando a Teca e o Zeca começavam a discutir, eu e a Tuca nunca nos metíamos. Sabe como é briga de irmãos, né? Mas depois que a discussão acabou, a Tuca se pronunciou:

– Eu acho que a Teca tem razão, mas por outro lado, eu li num livrvo que não é qualquer um que pode chegar lá. É preciso, além de coragem, acreditar que ele existe.

– Que o arco-íris existe?

– Não, burro. O final do arco-íris. É que, na verdade, ninguém nunca acreditou nisso.

– Eu acredito! Eu acredito!

A força das palavras de Zeca foi tanta, que todos passamos a acreditar que Zeca acreditava na lenda do final do arco-íris.

– Eu acredito! Eu acredito!

Como cada um de nós, no fundo, acreditava um pouquinho nessa lenda, resolvemos que no dia em que o arco-íris aparecesse, nós tentaríamos chegar até o seu final.

– Então todo mundo tem que ficar atento: no dia em que ele aparecer, nos encontramos na casa da Tuca.

Não demorou muito para chegar o dia em que o arco-íris apareceu. Só que era de tarde, e a Teca demorou muito para chegar, pois ela estava na escola.

– Desculpa, galera. Eu não consegui chegar mais cedo.

– Só podia ser a minha irmã para atrapalhar tudo.

– Quer parar de implicar, garoto.

Rapidamente eu coloquei a minha autoridade de mais velho e parei aquela discussão. Quando começamos a caminhar o sol estava quase se pondo.

– Tá vendo! Tá vendo! Não vai dar tempo de chegar lá.

– Mas também essa chuva só acabou agora!

– E pelo visto não vai chover tão cedo.

Para os que não sabem, o arco-íris só aparece depois da chuva, quando o sol bate nas gotas que ainda estão no ar.

– Mas o que adianta ser de tarde ou de manhã. O arco-íris só dura uns poucos minutos.

– Você sempre tem um raciocínio perfeito, minha irmãzinha.

– Calma, Zeca, a Teca, como sempre, tem razão, só que no mesmo livro, que eu obtive aquelas informações, diz que haverá um dia em que o arco-íris vai brilhar o dia inteiro. Quem sabe será no próximo dia em que ele aparecer.

Todos ficamos muito desanimados. O tal dia nunca havia acontecido, não seria agora que ele iria acontecer.

– O melhor que temos a fazer é irmos para casa e esperarmos o tal dia. Vamos, Zeca, mamãe deve estar esperando a gente para jantar.

Não é preciso dizer que o tal dia demorou, demorou e não chegou. Então, para levantar o ânimo, convidei os três para passarem o fim de semana no sítio da minha avó. Teca e Zeca aceitaram no ato, mas Tuca ficou indecisa:

– Não sei, não. É lógico que a viagem vai ser o máximo, mas já imaginou o que nós vamos ter que aguentar com as implicâncias entre o Zeca e a Teca?

Isso era verdade. Passar o fim de semana inteiro na companhia dos dois não ia ser mole. Mas o argumento de que as diversões iam abafar as discussões, fez com que ela topasse. E no primeiro dia ficou provado que eu tinha razão: não houve nehuma discussão e as brincadeiras foram muitas. Banho de rio, aventuras na floresta, passeio de cavalo, excursão à granja. Tudo o que tínhamos direito em um sítio. À noite, cansados, da sala de leitura ouvíamos a chuva que caía. Logo, com o cheiro gostoso de terra molhada, e com o barulho da chuva, dormimos, os quatro, no tapete da sala. Quando acordei, o sol já invadia a sala e um facho de luz iluminava os adormecidos. Fui à janela, e quando olhei para fora ví, mais brilhante do que nunca, o arco-íris. Meu coração começou a disparar e, quase sem voz, acordei os outros, que relutaram a levantar.

– Ah, que é isso? Ainda nem fechei os olhos já tenho que levantar?

– Nem adianta me chamar. Eu preciso de nove horas diárias de sono, senão eu não sou ninguém.

Só a Tuca se lenvantou e quando eu a levei para a janela, ela deu um grito que acordou os irmãos.

– O que foi isso?

– Aconteceu alguma coisa?

– Olhem! Olhem pela janela!

– Minha nossa: o arco-íris!

– Nunca ví tão nítido e brilhante!

– Vamos, gente, vamos tentar!

Rapidamente seguimos sua trilha e, a cada passo que dávamos, mais nítido ele ficava, mas o seu final parecia estar muito longe.

– Eu acho que esse arco-íris não tem final.

– Não fala isso, Teca. A gente tem que acreditar.

– Agora, mais do que nunca, eu acredito.

Havia horas que estávamos andando e o arco-íris não tinha desaparecido. Pelo contrário, estava enorme, quase ocupando o céu inteiro.

– Talvez seja hoje o tal dia em que o arco-íris vai brilhar até a noite. mas só que eu estou começando a ficar com fome.

– Você tem razão, Tuca. Meu estômago já tá roncando há muito tempo.

– E agora gente? Não trouxemos nada para comer.

Desde pequenininho eu vivia naquele sítio, mas nunca havia andado por aquelas terras. Como num passe de magica várias árvores frutíferas foram aparecendo pelo caminho. Eram maçãs, abacaxis, laranjas, pêras, morangos, jabuticabas, mamãos, mangas… Pudemos matar a nossa fome. Parecia que estávamos no paraiso, mas Teca, sempre realista, nos chamou à terra.

– Gente, se hoje é o dia em que o arco-íris vai brilhar até a noite, temos que nos apressar, pois pela posição do sol agora já estamos no meio da tarde.

Continuamos a caminhada. E, finalmente, atrás de um pequeno monte, conseguimos avistar o final do arco-íris. Ele terminava num poço. A alegria foi geral. Corremos muito até chegar ao poço. Na verdade, não era um poço, era um pequeno lago. Do tamanho de uma piscina. A primeira reação que tivemos foi mergulhar, mas Teca nos impediu:

– Calma, gente. Temos que ir devagar, afinal ninguém nunca chegou até esse poço. Ele deve reservar algo muito importante.

– No fundo do poço deve estar o pote de ouro.

– Você teria coragem de mergulhar e ir busca-lo?

– Bem… é… se vocês forem comigo.

– Teca tem toda razão: temos que pensar um pouco antes de entrar nessa água.

Depois de algum tempo, eu tive a idéia de entrar aos poucos para ver nossa reação.

– Vamos começar pelos pés, depois as pernas…

– Isso, depois entramos de vez.

E foi assim. Todos nós colocamos os pés, as pernas, entramos até a cintura, e nada de anormal acontecia. Zeca, na sua impaciência, não aguentou : pulou. Afundou dentro do rio, e com o corpo todo molhado falou:

– Nada. Nada de anormal aconteceu. Vou mergulhar e ir até o fundo para ver se acho o pote.

Esperamos o Zeca voltar, mas o tempo passou e ele não apareceu. Quando nossa ansiedade chegou ao limite, afundamos. Nada de Zeca. Nada de final do poço. Mas ao mesmo tempo parecia que não estávamos no fundo do poço, por que conseguíamos respirar e falar, como se estivéssemos em terra.

– Estou preocupadíssima. Aonde está o meu irmão?

– Calma, Teca, ele deve estar bem. Nós não estamos?

Por um instante tive uma sensação estranhíssima: era como se a minha vida inteira passasse pela minha cabeça. Até os momentos que eu ainda não tinha vivido. Zeca apareceu em seguida, e todos subimos para a superfície. O espanto foi grande: todos nós havíamos envelhecido uns 30 anos. Zeca estava de barda. Teca, muito bonita, usava óculos e uma roupa branca, e uma estranha relação me unia à Tuca. Fisicamente havíamos envelhecido, mas a nossa mentalidade continuava a mesma, exceto por alguns comentários estranhos.

– E agora, o que vamos fazer? Tenho que estar no escritório segunda-feira para fechar alguns contratos.

– Escritório? Que papo é esse, Zeca?

– Sei lá! Não sei por que eu falei isso. Que estranho!

– Estranho é ficar aqui brincando como criança sabendo que meus pacientes estão precisando de mim.

– Que isso, Teca? Pacientes? Só se forem as suas bonecas.

– Você tem razão, porque é que eu falei isso?

– Será que ficamos malucos?

Falando isso, Tuca olhou para mim indignada por que tínhamos deixado as crianças sozinhas. Que crianças? Tudo estava muito estranho. Alguma coisa mágica aconteceu quando mergulhamos no poço. Ficamos apavorados:

– E agora?

– O melhor que temos a fazer é mergulhar novamente no poço.

– E se envelhecermos mais?

– Zeca, acho que não temos outra alternativa.

Mergulhamos e nadamos até o ponto onde tínhamos ido. Voltamos para a superfície, mas continuávamos adultos. Tuca começou a chorar. Zeca ficou mudo de nervoso. Teca, pela primeira vez, não sabia o que fazer.

– Gente, eu acho que a nossa brincadeira foi longe demais. Vamos voltar para casa.

Desesperados, saímos correndo pelo mesmo caminho que tínhamos vindo. Só que a paisagem era outra. O campo mais parecia um deserto. Aquelas árvores frutíferas tinham desaparecido e não conseguíamos chegar na casa da minha avó. A noite caía e o mêdo aumentou. De vez em quando alguém falava alguma coisa estranha, que ninguém entendia:

– E as crianças? Como será que elas estão? Será que a babá está cuidando bem delas?

– Que crianças, Tuca?

– Sei lá.

Exaustos, resolvemos descansar debaixo da única árvore que havia restado. Já era noite feita. Cada um de nós, vencidos pelo cansaço, foi adormecendo. Parecia que eu nem tinha deitado, quando o galo cantou. Abri os olhos. Estava na biblioteca da casa da minha avó. Olhei para o Zeca e ele estava tão criança quanto eu. Sem demora, fiz questão de acordar os outros.

– Ah, que é isso? Nem fechei os olhos já tenho que acordar?

– Nem adianta me chamar. Eu preciso de nove horas diárias de sono, senão eu não sou ninguém.

A Tuca se levantou e me olhou espantada. Logo depois Zeca e Teca se levantaram. Parecia que eles também não estavam entendendo nada. Ninguém disse uma palavra. Ficou a certeza: nossa vontade de ver o final do arco-íris era tanta que acabamos sonhando, juntos, o mesmo sonho. Bem, isso é o que pensamos durante muito tempo, por que hoje Teca é médica, Zeca, além de usar barba, é diretor de uma fábrica de panelas, e eu e Tuca estamos casados e temos três filhos. Será que aquilo foi um sonho ou no final do arco-íris existe um poço misterioso?

A História dos Três Ursos

De Robert Southey

Era uma vez três ursos que moravam juntos na sua própria casinha, numa floresta. Um deles era um Urso Pequeno, Miúdo; um era um Urso de tamanho Médio, e o outro era um Urso Grande, Enorme. Cada um tinha uma tigela para seu mingau: uma tigelinha para o Urso Pequeno, Miúdo; uma tigela média para o Urso Médio e uma enorme para o Urso Grande, Enorme. E cada um tinha uma cadeira para se sentar: uma cadeirinha para o Urso Pequeno, Miúdo; uma cadeira de tamanho médio para o Urso Médio e uma cadeira grande para o Urso Grande, Enorme. E cada um tinha uma cama para dormir: uma cama pequena para o Urso Pequeno, Miúdo. uma cama média para o Urso Médio e uma cama grande para o Urso Grande, Enorme.
Um dia, depois de fazer o mingau para o seu café da manhã e de despejá-lo nas suas tigelas, saíram para a mata enquanto o mingau esfriava, para não queimarem a boca começando a comê-lo depressa demais. Enquanto caminhavam, um velhinha chegou à casa. Não podia ser uma velha boa e respeitável, pois primeiro olhou pela janela e depois espiou pelo buraco da fechadura; não vendo ninguém na casa, levantou o ferrolho. A porta não estava trancada, por que os ursos eram ursos bons, que não faziam mal a ninguém e nubca desconfiavam que alguém pudesse lhes fazer mal. Assim a velhinha abriu a porta e entrou; ficou muito satisfeita quando viu o mingau na mesa. Se fosse uma velhinha boa, teria esperado até os ursos voltarem para casa, e então, talvez, eles a teriam convidado para tomar café d manhã; por que eram ursos bons – um bocadinho estabanados, como é do jeito dos ursos, mas apesar disso muito afáveis e hospitaleiros. mas ela era uma velha atrevida e má, e começou a se servir.
Primeiro provou o mingau do Urso Grande, Enorme, e esse estava quente demais para ela; e ela praguejou. Depois provou o mingau do Urso Médio, e esse estava frio demais para ela; e ela praguejou por isso também. Passou então para o mingau do Urso Pequeno, o Miúdo, e o provou; e esse não estava nem quente demais, nem frio demais, estava na medida certa; ela gostou tanto dele que raspou a tigela. Mas a velhinha mal comportada praguejou por causa da tigelinha, por que não tinha o bastante para ela.
Depois a velhinha sentou-se na cadeira do Urso Grande, Enorme, e essa era dura demais para ela. Então sentou-se na cadeira do Urso Médio, e essa era macia demais para ela. Em seguida foi sentar-se na cadeira do Urso Pequeno, Miúdo, essa não era nem dura demais, nem macia demais, estava na medida certa. Então sentou-se nela e lá ficou até que o assento da cadeira se soltou e ela foi abaixo, esparramando-se no chão. E a velha mal comportada soltou uma praga por causa disso também.
Depois a velhinha subiu ao segundo andar e entrou no quarto onde os três ursos dormiam. Primeiro deitou-se na cama do Urso Grande, Enorme; mas essa tinha a cabeceira alta demais para ela. Depois deitou-se na cama do Urso Médio; e essa tinha o pé alto demais para ela. Em seguida foi se deitar na cama do Urso Pequeno, Miúdo; e essa não era nem alta nem na cabeceira nem no pé, estava na medida certa. Então ela se cobriu confortavelmente e ficou ali deitada até cair num sono profundo.
A essa altura, achando que seu mingau já devia ter esfriado bastante, os três ursos rumaram para casa para tomar o café da manhã. Acontece que a velhinha tinha deixado a colher do Urso Grande, Enorme, enfiada no seu mingau.

“Alguém andou mexendo no meu mingau!” – exclamou o Urso Grande, Enorme, com seu vozeirão áspero, roufenho. E quando o Urso Médio olhou para o seu mingau, viu a colher enfiada nele também. Eram colheres de pau; se fossem de prata, a velha mal comportada as teria enfiado no bolso.

“Alguém andou mexendo no meu mingau” – exclamou o Urso Médio, com sua voz média.

Foi a vez do Urso Pequeno, Miúdo, olhar para o seu mingau, e lá estava a colher na tigela, mas o mingau tinha desaparecido.

“Alguém andou mexendo no meu mingau, e acabou com ele!” – exclamou o Urso Pequeno, Miúdo, com sua vozinha pequena, miúda.

Diante disso, os três ursos, vendo que alguém tinha entrado na sua casa e comido o café da manhã do Urso Pequeno, Miúdo, começaram a procurar ao redor. Acontece que a velha, ao se levantar da cadeira do Urso Grande, Enorme, não tinha endireitado a almofada dura.

“Alguém sentou na minha cadeira” – disse o Urso Grande, Enorme, com seu vozeirão áspero, roufenho.

E a velhinha tinha achatado a almofada mole do Urso Médio.

“Alguém andou se sentando na minha cadeira!” – exclamou o Urso Médio, com sua voz média.

E você sabe o que a velhinha tinha feito com a terceira cadeira.

“Alguém andou se sentando na minha cadeira e lhe arrebentou o assento!” – exclamou o Urso Pequeno, Miúdo, com sua vozinha pequena, miúda.

Os três ursos resolveram então que era preciso dar uma busca maior na casa. Assim, foram até seu quarto, no segundo andar. Acontece que a velhinha tinha tirado o travesseiro do Urso Grande, Enorme, do lugar.

“Alguém andou se deitando na minha cama!” – exclamou o Urso Grande, Enorme, com seu vozeirão áspero, roufenho.

E a velhinha tinha tirado o rolo do Urso Médio do lugar.

“Alguém andou se deitando na minha cama!” – exclamou o Urso Médio, com sua voz média.

E quando o Urso Pequeno, Miúdo, foi olhar sua cama, lá estava o rolo em seu lugar; e o travesseiro em seu lugar em cima do rolo; e em cima do travesseiro estava a cabeça suja e feia da velhinha – que não estava em seu lugar, pois não tinha nada que estar ali.

“Alguém andou se deitando na minha cama e aqui está ela!” – exclamou o Urso Pequsno, Miúdo, com sua vozinha pequena, miúda.

A velhinha tinha ouvido em seu sono o vozeirão áspero, roufenho, do Urso Grande, Enorme. Mas estava dormindo tão profundamente que para ela aquilo não passou do rugido do vento, ou do estrondo de um trovão. E tinha ouvido a voz do Urso Médio, mas foi só como se tivesse ouvido alguém falando num sonho. Mas quando ouviu a vozinha pequena, miúda do Urso Pequeno, Miúdo, despertou num ato, tão cortante e estridente que era. Ergueu-se num sobressalto; e quando viu os três ursos de um lado da cama, pulou fora pelo outro e correu para a janela. Ora, a janela estava aberta, por que os ursos, como ursos bons e asseados que eram, sempre abriam a janela do quarto ao se levantar de manhã. A velhinha pulou da janela; e, se quebrou o pescoço na queda, ou correu na mata e lá se perdeu, ou conseguiu sair da mata e foi presa por um policial e mandada para a Casa de Correção, como uma vagabunda que era, não sei dizer. Mas os três ursos nunca mais tiveram notícia dela.

Robert Southey (Bristol, Inglaterra, 12 de agosto de 1774 – 21 de março de 1843) foi um historiador, escritor prosador e poeta britânico da escola do romantismo e “Poeta Laureado”.
Era filho de Thomas Southey e de Margaret Hill, um negociante abastado que tinha o estabelecimento na “Rua do Vinho”. Robert trabalhou na loja do pai como entregador, com o falecimento do pai o negócio foi sucedido por seu tio que cuidou da sua educação. Na adolescência foi destinado para a carreira eclesiástica, teve lições com um ministro protestante e depois ingressou no Colégio Corstor.
Aos 13 anos foi matriculado na Westminster School de onde foi expulso por editar num períodico satírico contra os dirigentes da escola. Mais tarde ingressou na Universidade de Oxford.
Foi levado para Lisboa por seu tio materno Herbert Hill, pastor anglicano, onde teve a oportunidade de planejar uma História de Portugal. Em 1810 foi nomeado scretário no Erário da Irlanda, retirando-se deste emprego foi residir em Keswick. Tinha um biblioteca que somava 14.000 volumes.
Especializou-se em História de Portugal e do Brasil, provavelmente era possuidor da melhor coleção de livros espanhóis e documentos originais sobre Portugal e América do sul em toda a Inglaterra.
O centenário do seu falecimento foi objeto de comemoração no Brasil por diversas entidades culturais, principalmente pelos Institutos Históricos e Geográficos Brasileiro e de São Paulo.

Um Dia, Uma Velhinha

de    Luciana Sandroni

 O que?! Como? Eu não estou escutando? Fala mais alto, minha filha! Eu não faço idéia do que aconteceu… Não sei como eu vim parar aqui no chão. Você me ajuda a me levantar, por obséquio? Ah, muito obrigada. Não sei o que seria de mim sem a sua ajuda, minha filha. Ai, minha virgem santíssima, que balbúrdia! Atropelada por um… O que era aquilo, hein? Eu estou tão abalada que nem sei. Para falar a verdade eu não entendi patavina do que aconteceu. Eu só queria comer um cachorro-quente e aí… O que?! O menino já conseguiu pegar o cachorro? Mas aquilo não era um urso? Pensei que fosse um urso fugido do circo. Ah, mas eu vou dar uma bengalada nesse moleque! Até que enfim essa bengala vai ter serventia! Seu meninote destrambelhado! O que?! “Minha tia?!” E eu lá sou sua tia?! Como?! “Velhota pirada?” Você viu, minha filha, do que ele me chamou?! Mas onde é que nós estamos, meu Deus?! Faz um estrago desses e ainda vem me xingar! Olha só! Até a carrocinha de cachorro-quente virou! Que pandemônio! E esses cachorros todos? De onde eles saíram? O que? Sentar? Ah, seria bom. Obrigada. Por que as pessoas estão me olhando? Como? Ah, elas estão preocupadas comigo. Eu ficaria mais preocupada com esse cachorro à solta por aí. Mas você tem certeza que era um cachorro? Parecia mais um urso. Sei… era um São Bernardo e eu sou baixa. Mas eu já fui um pouco mais alta. Eu diminuí, quer dizer, encolhi. Com a idade a gente vai encolhendo. Já fui alta e já fui nadadora. Você não acredita? Pois pode acreditar, minha filha. Eu nadava dessa praia aqui até o lado de lá. E nadava muito bem. Não que eu fosse uma Maria Lenk, mas nadava muito bem. O que? Quem é ela? Minha filha, a Maria Lenk foi a primeira mulher brasileira a participar de uma Olimpíada. Não, eu não fui para à Olimpíada não. Eu me casei e tive filhos. Meu marido não me deixava nadar. Pois é, no meu tempo era assim. Eu me contentava em assistir as fitas da Esther Willians e do Johnny Weissmuller. O quê? Ah, eram estrelas de cinema do meu tempo, minha filha. Você nunca viu um filme do Tarzan? Que coisa impressionante… Se eu vim nadar? Vim. Como você adivinhou? Ah, claro, eu estou aqui de maiô e toquinha, não é? Hoje é o meu filho que não me deixa nadar. Ele diz que eu estou velha. Velha é a cabeça dele! Eu tenho 90, minha filha, mas eu não me sinto velha. A Maria Lenk está aí nadando a valer com mais de 90. Porque eu também não posso? Velha é um estado de espírito, não tem nada a ver com a idade. Por exemplo, meu filho, é muito mais velho do que eu. Por quê? Ah, porque ele só fala de remédio, de aposentadoria, de fila de banco, essas coisas. O quê? Como é que eu saí sozinha? Ah, saí escondida. Você também? Que coincidência! Concordo com você: estudar num dia lindo desses não tem cabimento. Pois então, eu vi esse sol brilhando, esse dia estonteante e não tive dúvidas: “Vou nadar!” Não fazia um sol desses há muito tempo, não é mesmo? Só que eu não imaginei que ia enfrentar um urso no caminho da praia! Ainda estou com as pernas tremendo… O que? Se eu quero um cachorro-quente? Obrigada, acho que perdi o apetite. Como é? Tem um careca acenando para mim?! Ah, não! É o meu filho. Eu tenho que ir. Eu tenho que correr, se não ele não me deixa nadar. Até logo, minha filha, eu tenho que ir. Obrigada, por tudo! A bengala? Ah, você pode entregar para o meu filho, por obséquio?

GLOSSÁRIO (PARA ENTENDER ALGUMAS PALAVRAS ANTIGAS)

Obséquio – favor

Balbúrdia – confusão

Patavina – nada

Destrambelhado – adoidado

Pandemônio – confusão

A valer - muito

Estonteante - deslumbrante

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capitão Fragata e o Canto das Sereias

Trecho extraído da peça

“Capitão Fragata”

de

Glaucio Gomes

NUM CANTO DE UM VELHO PORTO ABANDONADO, UM COLCHÃO, UM VELHO COBERTOR, UMA TROUXA DE ROUPAS JUNTO A UM RETRATO DE UM MARUJO, FORMAM UMA CASA SOB UM TOLDO VELHO, QUE JÁ FORA UMA VELA DE NAVIO. É LÁ QUE VIVE O CAPITÃO FRAGATA, VELHO LOBO DO MAR. SEU AMIGO GABRIEL, UM MENINO DE 10 ANOS, VAI SEMPRE VISITÁ-LO PARA OUVIR SUAS HISTÓRIAS DO MAR!

GABRIEL

Me dê esta garrafa capitão, o senhor já bebeu tanto rum que não se agüenta em pé.

FRAGATA

Ora novato, isto ainda não foi nada, Eu poderia tomar todo o rum do mundo e ainda seria capaz de dar cabo de dez piratas e uma vez só e continuar em pé…

GABRIEL

Dez piratas de uma vez só?

FRAGATA

E com uma mão só… Gabriel , eu já contei como escapei do canto das sereias? Eu estava no mar já fazia quatro meses e nada de encontrar terra. A comida do navio estava no fim e meus marinheiros já davam sinais de desespero, mas eu mantinha minha mente clara e o navio no curso. Um capitão deve inspirar confiança em seus marinheiros… E eu estava lá segurando o timão e me mantendo firme como o grande mastro. Eu e o navio éramos um só.

GABRIEL

E as sereias capitão?

FRAGATA

Sim as sereias… Estava ali firme, quando de repente ouvi um canto que parecia vir do céu. Era como o vento passando apertado entre os rochedos… Foi quando apareceu uma linda menina, tinha o cabelo muito comprido e a pele mais branca que a espuma do mar… Seus olhos eram tão azuis como o mais lindo coral… Aos poucos foram aparecendo outras meninas e mais outras e ainda mais… O canto era cada vez mais suave e cada vez mais encantador, parecia o céu no mar… Eu estava completamente em transe quando de repente um som diferente, muito agudo, penetrou no meu ouvido me libertando, era uma baleia branca muito grande e muito bonita. Seu canto me despertou do encanto e pude ver que meus homens estavam completamente enfeitiçados e haviam abandonado seus postos deixando o navio a deriva na direção dos rochedos.

GABRIEL

E seu barco afundou capitão?

FRAGATA

Não me interrompa marujo, eu ainda não terminei… Onde estávamos mesmo?

GABRIEL

Nos rochedos …

FRAGATA

Sim nos rochedos…(retoma apaixonadamente) parecia que seria o nosso fim… Eu tentava lutar contra o feitiço das sereias mas seu canto tinha a ternura de cantigas de acalanto! Estávamos entregues ao nosso destino… Foi aí que aconteceu…! Foram aparecendo uma baleia atrás da outra até que havia tantas baleias no mar quanto estrelas no céu, e comandadas pela gigantesca baleia branca, se aproximaram do barco encostando seu bico no casco e usando a força de suas barbatanas empurraram meu barco para longe dos rochedos, até que as lindas sereias saíssem de nossas vistas e o acalanto parasse de ecoar em nossos ouvidos.

GABRIEL

Puxa capitão que história linda !

FRAGATA

Se você me der outro gole eu conto outra !!!

GABRIEL

Por hoje chega de rum ! Além disso, piratas, sereias e enormes baleias brancas não existem mais!!

FRAGATA

É claro que existem, eu não estou lhe dizendo que fui salvo das sere…

GABRIEL

o senhor está é bêbado!!!

FRAGATA

(falando num momento de lucidez)

Escuta aqui novato, eu posso estar mais bêbado que uma foca, mas eu sei o que estou falando! Os tempos mudaram é verdade, hoje o mundo é cibernético! O computador tomou conta de tudo… Mas eu também sei que os piratas nunca deixarão de existir… Eles estão aí fora…Em todas as partes…. você não os reconhece porque eles não usam mais as mesmas roupas nem andam em navios com a bandeira da caveira….Mas eles estão aí, saqueando, explorando os mais fracos (tira uma garrafa de sua sacola e suaviza o tom) Mas eles que se cuidem porque o Capitão Fragata vai acabar com todos eles! Tenho muitas aventuras para te contar Gabriel, mas agora acho que vou dormir um pouco.

(se deita cantarolando sua música abraçado à garrafa, até que adormece)

Um Autor à Procura de Personagens

Acontece com todo mundo que gosta de escrever: tem dias que as ideias não aparecem. A tela do computador custa para ganhar aquelas letrinhas, que juntas formam uma história. E foi exatamente num desses dias que resolvi ir à cidade Fantástica.
Peguei o primeiro trem com destino àquele estranho vilarejo em busca de personagens para uma história. Depois de uma viagem extenuante, finalmente cheguei e fui recebido pela autoridade local e seus dois assistentes:

– Detetive Havana, eu presumo.

– Sou eu mesmo. Com quem estou falando?

– Meu nome é Trigo, Márcio Trigo

– Então você é o autor que estamos esperando. O prefeito Estrela me recomendou tratá-lo como convidado especial da cidade.

– Fico muito agradecido, mas eu não tenho muito tempo para curtir a cidade. Tenho que criar uma história e estou sem ideia. Penso em achar algum personagem diferente.

Ao ouvir “personagem diferente”, Havana sugeriu irmos ao bairro do terror. Lá moravam vampiros, bruxas, duendes, dragões. Mas não era bem isso o que eu estava procurando.

– Posso dar uma sugestão?

– Não atrapalha agora, Bovino. – Havana cortou um dos seus assistentes – Posso te levar agora ao morro da Bola Murcha, lá existe personagens bem populares.

No morro o pagode comia solto. Muitos sambistas, mulatas e turistas estavam se divertindo, mas ninguém me interessava.

– Agora eu não sei o que fazer. – Havana parecia abatido.

– Tá que nem eu. Eu nunca sei o que fazer. – o tal Bovino era bastante espirituoso.

– Bovino, agora não é hora para brincadeiras.

– Muito bem, Boçal, estou gostando de ver seu profissionalismo.

Bovino e Boçal me pareceram uma boa dupla de personagens.

– Se o senhor quiser eu posso entrar em alguma história sua.

– Deixe de besteira, Bovino. Aqui, na cidade Fantástica, nós somos a lei, e sem nós, evidentemente, a lei acaba. – Havana foi categórico

– Nossa como o chefe fala “bão”!

– Bovino, deixa de ser Boçal, não é “como o chefe fala bão” é “como o chefe fala bom”, não é, seu Havana?

Sem deixar o detetive Havana perder a paciência com Bovino e com Boçal, interrompi a conversa.

– Encontrei meus personagens.

– Ué, mas nós nem fomos à praia do Tomate! Lá moram as sereias, os pescadores, os caranguejos…

– Meus personagens são vocês três. – eu disse – um detetive obstinado e dois assistentes atrapalhados. Isso pode render ótimas histórias.

O espanto foi geral, mas o detetive foi logo desconversando.

– Sinto muito, seu Márcio Trigo, mas nós não poderemos sair daqui da cidade Fantástica.

O que ele não sabia era que eles não precisariam sair da cidade.

– Nesse momento várias crianças estão lendo vocês.

Na verdade tudo o que acontece na cidade Fantástica vira história. O espanto se tornou alegria para eles:

– Quer dizer que a gente já era personagem e não sabia?

– Isso mesmo, Boçal. Às vezes você me surpreende.

Detetive Havana mal disfarçava seu contentamento, mas Bovino era o mais animado:

– Oba! Meu sonho se tornou realidade.

E de agora em diante muitas histórias acontecerão na cidade Fantástica. E Havana, Boçal e Bovino terão lugar obrigatório.

Cândido e Poliana

de Celso Taddei

Se o Bola de Neve me visse agora, ia blanquetear como nunca ninguém jamais blanqueteou, podem ter certeza. O Bola de Neve é um sujeito tão incrédulo que duvida até que o sol vai nascer no dia seguinte. Tenho dó do Bola de Neve, porque, duvide-ó-dó ou não duvide-de-ó-dó, ó o sol nascendo de novo – como sempre nasceu e como sempre nascerá. Hoje, por exemplo, está brilhante como ketechupe dentro do vidro. De vez em quando dá pra ver daqui. Tá, esse teto retrátil, abrindo e fechando o tempo todo, atrapalha um pouco – mas deve ser coisa de piscina aquecida, vai entender esses trecos afiambrados…

O que importa é que eu estou refestelado nessa aguinha quentinha, cercado de amigos e principalmente do lado dela! Dela, sim. Ela mesmo. ELA! Pois é. Sei que soa mainoese-mainoese, mas podem acreditar. Poliana está aqui, com o mesmo jeitinho meigo de sempre – um pouco mudada, sim, mas quem não muda? E ela, amigos, mudou pra melhor!

Quando eu falava que a gente tem que ser otimista, olhar o lado bom das coisas, acreditar que tudo vai dar certo, a turma achava exagero. “ Cândido, você é muito otimista”, diziam.

Bola de Neve, então, ficava uma arara, por incrível que pareça. Ele nunca se conformou com meu jeito: me achava um iludido e alertava de uma grande conspiração que acabaria com todos nós; a única saída era partir pra briga!

Briga? Eu, heim?! Tinha outras preocupações. Ou melhor, outra preocupação, que a preocupação era uma só. E se chamava.. Poliana!

Eu me apaixonei por Poliana muito cedo. Fomos criados juntos naquela vida boa de fazenda, livres, leves e soltos, compondo roques rurais – Cândido, Poliana e quem mais chegar – nossa vida parecia até comercial de margarina. (Aliás, gente, margarina em cachorro-quente não dá, né? Por favor, um mínimo de decência.)

Mas sou forçado a dizer, apesar de toda minha alegria e de todo meu otimismo, a margarina acabou azedando e Bola de Neve, infelizmente, mostrou que estava certo, que nossa vida na fazenda estava mesmo por um fio. Quando eu e Poliana acertávamos nossas vidas e começávamos a sonhar com um monte de bacurinhos correndo à nossa volta… aconteceu aquilo que meu amigo sempre avisou que iria acontecer. E a porcaria foi que a tal da conspiração caiu bem em cima de minha cabeça.

Ser porco não é fácil, principalmente quando se é um porco numa fazenda de corte. Não gosto de ficar me lamuriando, não gosto mesmo. Mas que foi chato quando me separaram de Poliana, ah, isso foi. E sem nenhuma delicadeza me jogaram num caminhão todo amarrado, pra mais tarde me dar uma paulada na cabeça (acho que foi paulada na cabeça, minha memória nunca mais foi a mesma depois disso). Muito chato.

Mas nada como um dia depois do outro e não há nada que uma boa noite de sono não cure. No meu caso, que era bem complicado, foram várias noites, Quando acordei de um longo sono de sonhos estranhos e incômodos, me senti diferente do que era. Uma sensação absurda, como se tivessem pego meus duzentos quilos suínos e enfiado numa salsicha de poucos gramas. E foi exatamente isso que aconteceu. Me transformaram em salsicha.

No começo, foi meio chato – não pelo inesperado da situação, isso não. Fora a saudade que sentia de Poliana, a nova vida de embutido até me era bastante agradável. Ruim era ter que agüentar as lamúrias dos companheiros da geladeira do supermercado, se esbelentando de tanto reclamar. Desculpa dizer, mas quando me tiraram da prateleira, foi um alívio – não achei ruim nem perder o ar condicionado, que era uma maravilha.

Mas a vida, como sempre digo, reserva sempre alegrias novas e diversas. Depois de tantos percalços, acabei esbelentado por esse passeio agradável, nesse lindo parque (acho que é um parque, o teto retrátil prejudica a visão), dentro dessa deliciosa piscina térmica e ao lado de minha linda, rósea e rotunda… Poliana. Mas, a história não terminou. Não. O que aconteceu foi que… Bem, não posso dizer ao certo. Perdoem, mas é que meus olhos só viam Poliana, e como salsicha não tem mesmo olhos, vocês imaginam que notar algo além do meu tenro amor, seria complicado. O fato é que, no meio daquela festa incrível, com a salsichada numa grande euforia, borbulhando de alegria; eu e Poliana, depois de tanto tempo separados, finalmente conseguimos chegar perto um do outro. Foi tanta emoção que parecia que eu ia estourar e que o mundo ia virar de cabeça pra baixo. Engraçado é viroui mesmo. O carrinho de passeio caiu de lado, a piscina térmica entornou e levou todas nós, salsichas, para o chão. Na queda, deu pra perceber gente correndo pra todo lado, gritando, devia ser carnaval, só podia. Pelo menos foi tão divertido quanto. Até encontrei um cãozinho muito simpático – acho que ele morava na fazenda, não é que o danado me reconheceu e veio bem pertinho de mim pra dar uma lambidinha de alô? Mas depois a confusão passou, a turma acalmou o ânimo e nós ficamos ali, fritando feito boas e belas salsichas no sol. Ô, vidâo! Bola de Neve ia blanquetear de vez ao me ver pegando um bronze, deitadão na terra fofa, nessa grama fresquinha e, do meu lado… Poliana!

Glossário:

BLANQUETEAR – Tomar um susto muito grande, a ponto de perder as cores da face e soltar um gritinho meio fino.

AFIAMBRADO – Pessoa, animal ou objeto chique, sofisticado.

MAINOESO-MAINOESO – O equivalente ao nosso mahomeno.

ESBELENTADO – Diz-se da salsicha que se esbelentou, e pode ter um sentido tanto positivo quanto negativo. Embora não haja uma tradução precisa na nossa língua, tem aproximadamente o mesmo significado da famosa expressão dos hambúrgueres, quando se dizem “borbulhados de fritor”.

Iliustração Amorim